sábado, 7 de março de 2020

TIVE PARALISIA INFANTIL NO INTERIOR DE MINAS NA DÉCADA DE 60... Um depoimento pessoal sobre a importância dos serviços públicos.

Sou de Lagamar – MG e com menos de um ano tive poliomielite (paralisia infantil). A cidade era muito pequena, economia rural, incrustada numa região de cerrado e não possuía serviços públicos de saúde. Quando adoeci não sabiam o que eu tinha. Alguns achavam que era problema de circulação e que a solução era me colocar no bucho de uma vaca recém-matada. Fiquei um bom tempo dentro de um bucho, imerso num universo de estrume mole e quente. A falta de acesso ao conhecimento científico (havia vacina sabin já em 1962) e de um bom serviço público de saúde, me deixaram literalmente na merda.

O diagnóstico de poliomielite foi obtido no Hospital Sara Kubistchek em Brasília. Hospital público, não estatal, com relativa autonomia, gratuito, com servidores altamente qualificados e com forte investimento em pesquisa. Foi esse serviço público de saúde que conseguiu fazer com que uma criança que não conseguia nem se sentar se transformasse em um ser serelepe, com autonomia para se locomover. Isso depois de quatorze cirurgias (muitas inovadoras para a época) e de incontáveis horas de fisioterapia. A ciência e a saúde pública e gratuita moldaram meu corpo e, consequentemente, minha existência.

Sempre estudei em escola pública, exceto um cursinho no último ano do segundo grau. Fiz licenciatura em Arte Plásticas na Universidade Federal de Uberlândia, mestrado em Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrado e doutorado em Humanidades na Universidade Autônoma de Barcelona. Tudo isso com bolsa de instituições públicas, inclusive bolsa da comunidade europeia, específica para pesquisadores latino-americanos: Cota. A escola e a universidade públicas moldaram meu caráter e minha práxis.

Com 25 anos me tornei professor efetivo de uma universidade pública. Sou professor associado da Universidade Estadual de Londrina, há 29 anos. Entrei na carreira via concurso público. Há mais de 30 anos me dedico à docência, à formação de jovens. Tenho o maior prazer e a maior honra em ser professor. Fascina-me aprender com os estudantes.

No âmbito da pesquisa me dedico ao estudo das políticas públicas para a arte e a cultura. Também fui gestor público na Secretaria de Cultura de Londrina e na Casa de Cultura da UEL. Tenho alguns livros publicados na área. As políticas públicas de arte e cultura moldaram minha sensibilidade, imaginação e criatividade.

Com esse histórico seria uma grande hipocrisia ou uma total incapacidade de raciocínio não defender ferrenhamente o bem comum: o patrimônio e os serviços públicos. Tenho buscado não ser hipócrita e usar essa capacidade muito peculiar da espécie humana: pensar.

Para Terminar uma historinha que ouvi numa terra indígena entre o Tocantins e o Maranhão.

“Um professor de educação física elaborou um projeto para ensinar um determinado grupo indígena a jogar futebol. Aprovado o projeto, lá foi o empolgado professor para a Terra Indígena. Juntou os jovens da aldeia, limparam um terreno plano, ficaram as traves de bambu e passaram para a parte teórica. O professor explicou paciente e didaticamente as regras. Perguntou se haviam entendido e todos disseram que sim. Na hora de checar os conhecimentos teóricos, o professor assumiu o papel de juiz, colocou a bola no centro do gramado e deu um longo apito iniciando a peleja. Para sua surpresa os vinte e dois atletas correram juntos para o mesmo campo, marcaram um gol e saíram comemorando. Contrariado o professor reuniu os dois times e explicou de novo as regras: são dois times, um contra o outro com o objetivo de marcar gols e de se defender para não tomar gols. Perguntou de novo se todos tinham entendido. Sim! Responderam em uníssono. Colocou novamente a bola no centro e apitou. Agora foram os vinte e dois correndo para o outro campo e marcaram juntos outro gol. Festa no campo e nas arquibancadas... e o professor estupefato. Chamou todos novamente e afirmou que eles não estavam entendendo as regras e que ele ia explicar de novo. Antes de iniciar a explicação foi interrompido pelos atletas que disseram: Nós entendemos sim as regras, mas para nós não faz o mínimo sentido. Se todos podem ser felizes, porque só a metade vai ser?”

NO DIA 18/03 GREVE UNIFICADA DOS SERVIDORES PÚBLICOS

Em defesa dos serviços públicos, direitos, empregos e democracia.